sábado, 12 de agosto de 2017

DAS MINHAS CONVERSAS POR E-MAIL (8)




[…]

Ao passar os olhos pelas páginas do Público, antes de o ler com mais atenção, os meus olhos quedaram-se na página 42 no anúncio do livro de John Locke – Dois tratados do governo civil.

Foi o suficiente para pôr a minha imaginação a trabalhar e fazer ressurgir a minha revolta surda.

Passados quase três séculos, depois de múltiplas revoluções e contra-revoluções na área social e dos direitos humanos, de se discutir Karl Marx e Hengel, sem que, na maioria das vezes, tenham lido algo deles, de se opinar sobre os direitos sociais, sem saber nada do que isto representa, de apelarem aos grandes marcos da sociedade livre – a revolução americana, a revolução francesa, a revolução soviética (desvirtuada rapidamente) e da própria revolução de Abril de 1974 – sem se importarem pelas suas géneses, não vou estranhar que pouco se saiba sobre John Locke.

E, foi assim, que percebi: se a maior e mais antiga democracia do mundo, pelo menos na visão mais moderna de democracia elege uma figura tão asna, iliterata e desrespeitosa dos mais elementares direitos humanos, como se poderia saber que Locke escrevera o primeiro tratado como refutação ao pensamento absolutista e do direito hereditário de Robert Filmer, em Patriarche?

Mais, ainda, quando em pleno século XXI, o servilismo do poder absoluto e das benesses atribuídas aos seus lacaios consente o exercício “político” de um homem que ignora os mais elementares princípios de Equidade, Justiça e Liberdade – Donald Trump –, pondo em risco o equilíbrio social da Humanidade? […]

[…]



quarta-feira, 26 de julho de 2017

DESAPARECEU OU ESTÁ A PREPARAR ALGUMA…




Mandem os fuzileiros procurar Passos Coelho

Passos Coelho desapareceu, deixou de se ver desde que foi beber ponchas na Madeira e a bezana lhe deu para dizer que o PSD era o partido mais português e que na hora das decisões caramba que só ele as sabia tomar. Desde então apareceu a Teresa Morais a inventar mortos e o Hugo Soares a dizer que o armário de Costa estava cheio de cadáveres não contabilizados como vítimas do Estado gerido pela geringonça.

Como Passos não apareceu ainda com os burrinhos na areia da Manta Rota e, tanto quanto se sabe, ainda não foi andar por aí, há forte motivos de que tenha ido em busca de cadáveres perdidos ou de suicidas pendurados nas árvores em consequência da ausência de António Costa. Com tantos incêndios é possível que o desgraçado tenha sido ele próprio uma das vítimas por contabilizar e só isso explica que tenha desaparecido, entregando o partido ao cuidado daquele senhor com umas faces tão rosadas e uma linguagem tão primária, que faz lembrar um taberneiro.

Não, Passos não desapareceu, é uma pena, mas deve estar bem de saúde. O que Passos está fazendo é algo tão sinistro como inventar vítimas de suicídios. Ainda que não seja grande coisa a experiência de governante deve ter sido suficiente para saber que a investigação não é competência do governo e se mandou a Teresa ou o taberneiro falar de listas de mortos foi apenas para enganar o país. É por isso que anda desaparecido, para não dar a cara pela manobra suja que promoveu.

Aquilo a que o país tem assistido é a manobra política mais suja e asquerosa a que o país assistiu, foi Passos Coelho que a concebeu, que a tem dirigido e é por isso que tem estes desaparecimentos intermitentes, para que a sua imagem não fique associada ao oportunismo sem limite, ao aproveitamento político do sofrimento alheio e ao deseja descarado de que se multipliquem as vítimas e os incêndios. Não é a primeira vez que um incêndio ajudou um canalha a chegar ao poder.

Nunca o PSD desceu tão baixo, ninguém vê Passos Coelho e a sua equipa dar qualquer apoio, mostrar o mais pequeno sentido de Estado. Eles não aparecem na desgraça para motivar os bombeiros, para confortar as populações. Passos aparece quando tudo passou para cobrar votos, para cobrar pelo sofrimento alheio.

É por isso que desaparece de vez em quando, enquanto manda a Teresa e o taberneiro fazer o papel triste aguarda por mais uma qualquer desgraça, que ocorra mais um roubo, que uma qualquer maluca em busca de “algo” apareça a inventar mortos, que um oportunista sem escrúpulos de uma qualquer Santa Casa lhe diga que sabe de suicídios. Há os que bem ou mal combatem os incêndios e dão a cara junto de quem sofre e há os que estão no conforto da sua escassa esperando que a desgraça alheia os ajude nas eleições.”




terça-feira, 18 de julho de 2017

DAS MINHAS CONVERSAS POR E-MAIL (7)



[…] quero mostrar-te um pequeno vídeo que gravei, ontem, do Jornal da Tarde da RTP 1.

Tenho que me revoltar, só não sei contra quem; isto é: não sei se hei-de responsabilizar o ensino nas nossas escolas – que não preparam correcta e conveniente os futuros profissionais de informação –, se, mais uma vez, responsabilizar os “manda-chuvas” dos órgãos de comunicação por fazerem com que os seus profissionais usem terminologia alimentadora da abundante iliteracia deste nosso povo.

A pergunta que faço é (cerca dos 19 segundos de vídeo) o que entende a “jornalista” por “latifúndio”?

Não é, certamente, o mesmo que eu e do que consta nos nossos dicionários. Latifúndio é uma propriedade rural de grande dimensão (geralmente de pouco rendimento), e o problema do interior montanhoso é a floresta e o minifúndio.

Não me vou alargar mais... é triste a impreparação dos jovens jornalistas; é alarmante.

É certo que têm de praticar para atingirem o caminho da excelência. O que quero referir, também, e principalmente, é a falta de responsabilidade dos orientadores dos estágios e dos interesses pouco confessáveis dos gestores – administração, directores, editores, etc.

[…]



video

quinta-feira, 22 de junho de 2017

VALE TUDO



Para quem ainda não acredita na manipulação da informação.
Contributo para compreender a ética deontológica do jornalismo em Portugal.

Percebe-se, agora, como se consegue ter no ar, durante mais de uma hora, jornalistas e comentadores a falar da queda de um avião, sem sequer confirmarem o desastre. A sede de sangue é tanta que nem se confirma a origem ou a veracidade da notícia.

Qual o objectivo?




«Nos últimos dias, à semelhança de toda a imprensa espanhola, o El Mundo (Espanha) tem publicado inúmeras notícias sobre o incêndio de Pedrógão Grande. Mas ao contrário da generalidade dos jornais, como o El Pais e outros que o têm feito de forma neutra, o El Mundo tem publicado textos, sem excepção, que demonstram uma orientação claramente anti-governamental e que procuram atribuir responsabilidades a António Costa, Ministros e autoridades portuguesas.

Alguns exemplos: “Caos no maior incêndio da história de Portugal: 64 mortos, um avião-fantasma e 27 aldeias evacuadas.”, “gestão desastrosa da tragédia”, "A evidente falta de coordenação entre as autoridades, provocou uma enxurrada de críticas à gestão do desastre por parte do Governo do primeiro-ministro António Costa, e em particular da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, a menos de quatro meses das eleições legislativas.”

O caso atinge mesmo proporções políticas colossais. Não só é sugerido que o caso pode fazer cair ministros e até todo o governo, sugere ainda que pode mesmo “pôr fim à carreira política de António Costa.” É este o clima que o El Mundo diz que se vive em Portugal.

A torrente de notícias duras e o tom crítico não tardaram a chegar a Portugal, e a imprensa portuguesa, na sua maioria, deu eco às críticas do El Mundo: Sábado, SIC Notícias, Jornal Económico, Observador, Expresso, Correio da Manhã são exemplos de órgãos que foram publicando notícias sobre aquelas notícias. Casos destes são frequentes: recorrer à imprensa internacional para validar posições sobre questões internas; ver o que “o que se anda a dizer de nós lá fora” e, se disserem mal, há quase automaticamente um enorme potencial mediático.

O autor de todos estes textos do El Mundo é sempre o mesmo: Sebastião Pereira. E é justamente aqui que o problema começa. Até ao último Sábado, Sebastião Pereira nunca tinha escrito um único texto no El Mundo ou em qualquer outro órgão de comunicação social português ou espanhol. Uma conclusão que resulta de uma pesquisa em todos os arquivos online. Não há também qualquer registo com o nome de Sebastião Pereira na Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), a única instituição que pode habilitar jornalistas portugueses a exercer a profissão em Portugal. Nas redes sociais, nas escolas de jornalismo e entre jornalistas que estiveram no local do incêndio, ninguém sabe ou ouviu falar de tal nome.

Segundo o El Mundo, Sebastião Pereira é um freelancer a actuar em Lisboa, que, no Sábado, se ofereceu directamente ao jornal para fazer a cobertura dos incêndios florestais de Pedrógão Grande, aproveitando para isso o facto de já estar pela zona.

É este o estranhíssimo caso de Sebastião Pereira, o jornalista-fantasma.

Neste momento, e depois de investirmos algumas horas no assunto, podemos afirmar com segurança que o "jornalista português Sebastião Pereira" não existe, logo:

1. Ou Sebastião Pereira não é jornalista e, usando o seu nome próprio ou um pseudónimo, enganou um dos maiores jornais espanhóis e a imprensa portuguesa foi de arrasto num enorme logro.

2. Ou Sebastião Pereira é um jornalista português com carteira (ou carteira de estagiário) que está a usar um pseudónimo para dissimular a sua verdadeira identidade (na consciência, talvez, de que a verdadeira identidade cortaria a corrente mediática que se formou e que deu origem às notícias em Portugal)

3. Ou o El Mundo está a enganar todos os seus leitores e não contratou nenhum jornalista, estando apenas a reproduzir textos de outros órgãos, criando a assinatura de uma personagem fictícia.

Em qualquer das hipóteses, o caso é gravíssimo por várias razões. Desde logo, porque podemos já dizer que grande parte da imprensa portuguesa foi caixa de ressonância de uma notícia que tem, no mínimo, um problema de consistência enorme no plano da autoria. Mas pode ainda ser mais grave, dependendo do que vier a saber-se a partir deste preciso momento.

Entendemos que o El Mundo tem de dar explicações sobre este caso, identificando inequivocamente Sebastião Pereira. Tem de dar explicações urgentes. É nesse sentido que propomos a todos os nossos seguidores que nos ajudem a contactar Paco Rosell (Diretor) e Silvia Roman (Jefa Sección Internacional), para que ambos se pronunciem sobre o que se está a passar.




sábado, 6 de maio de 2017

INTOLERÂNCIA





Temos, cada vez mais, educadores do povo… intolerantes!

Critica-se o uso do véu islamita, mas condescende-se com o hábito das freiras. Há uma quantidade de gente – os especialistas da generalidade – conhecedora de todas as matérias; essas matérias poderão ir da simples discussão do materialismo dialéctico e ideológico à mais profunda análise teológica relativa a qualquer religião, mesmo sem a conhecer e sem saber ou respeitar o mais elementar princípio de consideração por quem nos rodeia. Conheça ou não os assuntos em discussão, têm sempre uma opinião a transmitir e uma verdade a defender – é sempre a oportunidade de opinarem.

Pior que um sofista, é um sofista intolerante.

Numa perspectiva de diálogo e respeito por quem connosco convive, deveríamos estar do lado de quem busca a verdade, e ter a humildade de quem quer saber e conhecer.

Quando, por um lado, nos confrontamos com religiões que estão em maioria, naturalmente aceitamo-las; se, pelo contrário, a religião se quedar por uma minoria, deveria haver, pelo menos, a intenção de respeitá-las.

Não pretendo perceber ou defender verdades religiosas “absolutas”, mas, tão-só, poder compreender as razões que eventualmente estarão por de trás de quem as segue. Não quero vestir a roupa de quem necessita de um rótulo de isenção (como aqueles que se afirmam agnósticos, para discutirem tendenciosamente a religião, imbuídos de aparente independência) e, por isso, não vou dizer se sou agnóstico, se sou ateu ou, simplesmente, se sou um confesso religioso.

Eis porque gostaria, na minha humilde ânsia de esclarecer e ser esclarecido, deixar à consideração o brilhante texto do Professor Dr. P.e Anselmo Borges, publicado, a 5 de Maio de 2017, no DN, que, sendo padre é acusado por muitos ateus, crentes e agnósticos de não se manifestar suficientemente “à altura daquela igreja tradicional e pré-conciliar”:

«1 - Um problema maior deste tempo são a pressa, a imediatidade, a fragmentação. Alguém pára para pensar, para verdadeiramente se informar, reflectir? Alguém lê livros? Sim, livros? Porque um livro, quando é bom, dá que pensar, e tem princípio e meio e fim e aberturas para lá dele e é preciso dialogar com ele e os seus pressupostos e os seus horizontes. Mesmo num jornal, lê-se a notícia toda ou só o título? Afinal, um dos grandes perigos de hoje é que se vive de flashes, de impressões, na vertigem de um tsunami de informações e opiniões dispersas, intoxicantes.

No passado dia 14 de Abril, o jornal Expresso titulava na primeira página: "É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima" (Anselmo Borges). E remetia para uma entrevista na página 22. É claro que quem só leu este título ficou enganado. É verdade que eu disse aquilo. Mas quem foi ler a entrevista? Quem leu encontrou o que é fundamental: a necessária distinção entre "aparição" e "visão": "Posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é dogma. Não me repugna, contudo, que as crianças, os chamados três pastorinhos, tenham tido uma experiência religiosa, mas à maneira de crianças e dentro dos esquemas religiosos da altura. É preciso também distinguir aparições de visões. É evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima. Uma aparição é algo objectivo. Uma experiência religiosa interior é outra realidade, é uma visão, o que não significa necessariamente um delírio, mas é subjectivo. É preciso fazer esta distinção."

Como já aqui expliquei, é evidente que Maria não apareceu fisicamente em Fátima, pois o crente na vida plena e eterna em Deus sabe que essa vida é uma nova criação, para lá do espaço e do tempo; não é segundo o modo da vida neste mundo. Mesmo a ressurreição de Jesus não é a reanimação do cadáver, é evidente, e, por isso, está para lá das manifestações físico-empíricas. Eu acredito na vida eterna e que Jesus está vivo em Deus. Como é? Ninguém sabe. As grandes experiências, as que decidem da vida e da morte e do sentido da existência e da história, são interiores. É neste dinamismo que estão as experiências da fé religiosa, mesmo se – a experiência nunca é pura, nua – se dão no quadro de esquemas, figuras e imagens interpretativos, segundo as situações, os tempos e os contextos. O referente – pólo objectivo – é sempre o mesmo: o Mistério, o Sagrado, Deus, Presença transcendente-imanente, que o crente – pólo subjectivo – experiencia como Fundamento e Fonte de salvação.

Percebe-se então que há experiências religiosas melhores e outras menos boas. E lá está na entrevista: “E por isso digo que é necessário evangelizar Fátima, ou seja, trazer uma notícia boa. Porque mesmo para aquelas crianças aquela não foi uma notícia boa: que mãe mostraria o inferno a uma criança?

2 - Qual é o núcleo da mensagem de Fátima? Em primeiro lugar, a oração. É uma grande mensagem? É. Para crentes e não crentes. Quem não precisa de rezar? Não necessariamente dizendo orações, embora os cristãos tenham a oração essencial que Jesus ensinou: “o pai-nosso”, onde está o núcleo da vida: a ligação à Transcendência, que é Amor; que o Reino de Deus venha: o Reino da verdade, da justiça, da dignidade livre e da liberdade na dignidade para todos e que lutemos por isso; a gratidão face ao milagre exaltante da Vida; o pão para todos; o milagre do perdão; a atenção ao essencial da vida, para se não cair na tentação da desgraça, do mal que fazemos a próprios e aos outros. A oração implica parar para escutar o silêncio e o que só no silêncio se pode ouvir: a voz da consciência e da dignidade, meditar, descer ao mais fundo de si, lá onde se encontra a ligação com a Fonte, donde tudo vem e onde tudo se religa e se faz a experiência do transtempo, para se poder viver no tempo sem se afundar na dispersão e no vazio.

A outra mensagem: “Fazei sacrifício e penitência.” E aquelas crianças até a pouca comida que tinham davam às ovelhas pela conversão dos pecadores.

Fátima precisa de ser evangelizada. Evangelho quer dizer notícia boa e felicitante, mas, frequentemente, como bem viu Nietzsche, o que se anunciou foi um Disangelho: uma notícia desgraçada e que arrastou consigo imensa infelicidade. No Evangelho segundo São Marcos, Jesus inicia a sua vida pública, proclamando: “Metanoiete”, cuja tradução normalmente é: “Fazei penitência”, mas realmente o que lá está é: mudai de mentalidade, de modo de pensar; portanto, mudai de vida, de mentalidade, de atitude, e acreditai no Evangelho. Jesus anunciava: “Ide aprender o que isto quer dizer: Deus não quer sacrifícios, mas justiça e misericórdia.” O que Jesus declarava era uma boa-nova: Deus é Amor, Fonte de vida, Liberdade criadora, que quer a vossa felicidade. “Não tenhais medo”, é outra palavra constante de Jesus. Mas, realmente, o que se pregou muitas vezes foi um deus da tristeza, do medo, do terror, chegando-se ao limite de pregar que Deus precisou da morte do próprio Filho para se reconciliar com a humanidade. Foi deste deus que Nietzsche proclamou a morte, porque perante um deus assim só se pode desejar que morra.

É completamente diferente o que está no Evangelho. Jesus não foi morto para aplacar a ira de Deus, Ele entregou-se à morte e morte de cruz para dar testemunho da Verdade e do Amor: o único interesse de Deus é que os homens e as mulheres, todos, sejam plenamente realizados e felizes. Esse é o sentido do sacrifício: não o sacrifício pelo sacrifício, mas o sacrifício que traz vida. O sacrifício pelo sacrifício não vale nada, mas, por outro lado, sem sacrifício, nada de grande, de verdadeiramente valioso, se realiza. “Mudai de mentalidade”: batei-vos pela vida, pela justiça, pela paz, pela felicidade, pelos direitos e pela dignidade divina de cada homem e de cada mulher, de todos. Sacrificai-vos por isso. É o que Deus quer e o que vale a pena. Para sempre.»




quinta-feira, 4 de maio de 2017

PASSOS, O RESPEITADOR


“Como é que uma sociedade com transparência e maturidade democrática pode conferir tamanhos poderes a alguém que não foi escrutinado democraticamente” [Passos Coelho]

“Se estão disponíveis para serem juízes do TC, têm que estar disponíveis para serem objecto de crítica jurídica e política.” [Teresa Leal Coelho]

“O escrutínio político deve ser feito denunciando aquilo que são as eventuais contradições, aquilo que são as obscuridades eventuais dos acórdãos do Tribunal Constitucional.” [Teresa Leal Coelho]

É uma interpretação ideológica da Constituição que vicia o princípio da alternância democrática, que condiciona a liberdade de ponderação do legislador e que manifestamente não compete ao TC.” [Teresa Leal Coelho]



Se procurarmos no Google encontramos dezenas de posições de personalidades do PSD e em particular de Passos Coelho e da sua vice-presidente criticando, condicionando ou pressionando os juízes do Tribunal Constitucional. Este PSD tem tantas semelhanças com os clubes de futebol que se diria que os responsáveis deste partido se comportam nesta matéria como os líderes de claques de futebol, mais um pouco e pareceriam jogadores do Canelas.

Mas em relação ao Conselho de Finanças Públicas já são grandes defensores da independência, ninguém pode questionar a independência, a capacidade técnica ou o critério de escolha. O governo deve comer e calar. E se este órgão mantiver uma oposição permanente ao governo com base em falsas previsões e partindo de pressupostos ideológicos, o governo deve comer e calar.

Não está em causa comparar o Tribunal Constitucional com o Conselho de Finanças Públicas, porque em matéria de importância, rigor e honestidade intelectual os factos explicam as diferenças. Mas criticar um órgão cujos membros são escrutinados por uma escolha feita pelo parlamento, com um obscuro conselho cujos membros são propostos por um funcionário do Banco de Portugal e por um tribunal constituído por juízes escolhidos por um concurso de funcionários, para defender a independência do CFP como se estivesse acima de todos os órgãos de soberania é ridículo.

Temos um presidente do PSD cujo respeito institucional pelos órgãos de soberania está abaixo de meros conselhos não sei do quê, um senhor que não respeitava as decisões do TC, mas agora quer que o país engula todas as previsões erradas do CFP.

Negritos, nossos.


domingo, 9 de abril de 2017

A Bíblia em praça pública




O projecto de Frederico Lourenço, assumido pela Quetzal, não se limita a uma nova tradução do Novo Testamento, mas à tradução de toda a Bíblia Grega, judaica e cristã.

1. Como escreveu, em 2016, o Prof. José Augusto Ramos, o universo cultural, editorial, científico e académico português foi recentemente presenteado com o aparecimento do primeiro volume de uma tradução da Bíblia grega, conceito que nos tem sido estranho, desde há muitos séculos[1]. Este ano, nos finais de Março, Frederico Lourenço inundou todas as livrarias com o segundo volume da tradução da Bíblia grega, o Novo Testamento completo, escrito há quase 2000 anos, cujo original é irrecuperável. Esta tradução está baseada no texto fixado por Nestle-Aland[2].
Para F. Lourenço, a leitura comparativa dos evangelhos canónicos e dos restos que nos chegaram dos apócrifos não deixa qualquer dúvida quanto à imprescindibilidade de Marcos, Mateus, Lucas e João, talvez os livros mais extraordinários da História da Humanidade.
Um padre, espantado com este fenómeno, perguntou-me: mas esse tradutor é padre? Quando lhe respondi que não era padre nem ex-padre, não era católico nem protestante e que neste trabalho prescinde, metodologicamente, de pressupostos religiosos, mostrou-se desconfiado. Aí há gato!
O que há, de facto, é talento, competência e muito trabalho. Convidei esse clérigo apreensivo a ler o currículo do tradutor que vem nas capas de ambos os volumes e acrescentei o meu pressentimento: com esta aparição, Frederico Lourenço e os responsáveis da Quetzal Editores vão alterar o clima cultural da Bíblia, no nosso país. Não esperam canonizações, mas merecem avaliações críticas competentes[3].
Pensar que o estudo da Bíblia e as suas traduções só merecem confiança se forem obra de clérigos e de editoras católicas submetidos ao Imprimatur episcopal é supor que a Bíblia é propriedade privada de empresas confessionais. Que os responsáveis das comunidades católicas zelem pela formação bíblica dos seus membros e pelas expressões da fé cristã é o mínimo que se lhes pode pedir. Infelizmente, nem sempre cumprem esta missão.
Ninguém tem o monopólio da Bíblia e só há vantagens em que seja reconhecida e trabalhada como o “Livro dos livros”, a expressão das raízes judeo-cristãs da civilização ocidental. Há muito a fazer para se tornar parte activa da cultura portuguesa, nas suas diversas expressões. Criticam-se, e com razão, as correntes sociais, políticas e culturais que desejam fechar as religiões nas respectivas sacristias. Mas seria lamentável que as sacristias amuassem ao ver essa literatura religiosa estudada e debatida com toda a liberdade, no espaço público.
Herculano Alves reuniu, numa obra muito útil, os Documentos da Igreja sobre a Bíblia, desde o ano 160 a 2010[4]. No começo deste ano, foi lançado pela Biblioteca Dominicana o testemunho incontornável de Marie-Joseph Lagrange, O.P., sobre os tormentos que sofreu do Vaticano e das invejas eclesiásticas organizadas para impedir as inovadoras investigações e publicações científicas da Escola Bíblica de Jerusalém, nos finais do século XIX e nos primeiros 30 anos do século XX[5]. Quem comparar a miséria cultural dessa situação com o documento da Comissão Pontifícia Bíblica, de 15 de Abril de 1993[6], pode ter a impressão de que não pertencem à mesma Igreja.
Não reconhecer a importância de colocar a Bíblia no espaço público, segundo as exigências culturais do nosso tempo, só pode alimentar a suspeita de que a razão crítica é inimiga da religião, das suas linguagens e das suas práticas.
2. O projecto de Frederico Lourenço, assumido pela Quetzal, não se limita a uma nova tradução do Novo Testamento, do qual já existem várias, de diversos estilos, mas à tradução de toda a Bíblia grega, judaica e cristã. A Bíblia judaica e a Bíblia hebraica não se identificam, como se a grega não fosse, também, judaica. A grega, designada como Septuaginta (LXX), é a primeira tradução da Bíblia[7] e o seu nome designa a tradução da Torah hebraica para o grego, realizada em Alexandria durante o reinado de Ptolomeu II (285-246 a.C.).
Segundo a lenda, setenta sábios de Jerusalém, conhecedores do hebraico e do grego, partiram para Alexandria, cidade com grande população judaica, mas onde se falava sobretudo o grego. Cada um tinha o seu quarto particular e a obrigação de traduzir as Escrituras. Começaram todos ao mesmo tempo e terminaram todos ao fim de setenta dias. Ao conferi-las, verificaram que todos tinham traduzido da mesma maneira. Para lenda e milagre não está mal.
A dita versão constituiu um acontecimento cultural sem precedentes e a iniciativa literária mais importante para os anais da civilização. Pela primeira vez, a sabedoria de Israel passava de uma língua semita para outra indo-europeia e, por aí, ao mundo ocidental.
3. Quando, séculos mais tarde, a LXX foi adoptada pelas primeiras comunidades cristãs, como a Bíblia oficial, acompanhou a expansão do cristianismo, tanto no Oriente como no Ocidente.
A partir do séc. V d.C., a LXX foi destronada, no Ocidente, pela tradução de S. Jerónimo para latim, denominada a Vulgata. Esta versão dominou a cultura ocidental durante a Idade Média. Foi declarada como autêntica, isto é, fiável em matéria de fé e costumes, pelo Concílio de Trento (1546). Na Igreja Ortodoxa, a Bíblia grega manteve-se como Bíblia oficial ou canónica até aos nossos dias.
Outro foi o rumo das traduções da Bíblia na Reforma. Espero que, entre nós, o nome de Lutero tenha deixado de ser considerado um insulto.





[1] Cadmo 25 (2016) 101-113. Cf. também de José Augusto Ramos, Traduções Portuguesas da Bíblia Transversalidades Linguístico-Culturais em Tarefas de Hoje, Gaudium Sciendi, Nº 3, Janeiro 2012, pp 124-146
[2] Entre 1898 e 2012 atingiu 28 edições
[3] Cf. José Augusto Ramos (Cadmo 25 (2016) 101-113); Isaías Hipólito (Brotéria 184 (2017) 205-225)
[4] Documentos da Igreja sobre a Bíblia (160-2010), Difusora Bíblica, 2011
[5] Marie-Joseph Lagrange, O.P., Recordações Pessoais. O Padre Lagrange ao serviço da Bíblia, Biblioteca Dominicana, Coimbra, Tenacitas, 2017
[6] A Interpretação da Bíblia na Igreja, S. G. E., Rei dos Livros, 1994
[7] Cf. Natalio Fernández Marcos, Septuaginta. La Biblia griega de judíos y cristianos, Sígueme, Salamanca, 2008.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

DA MINHA CORRESPONDÊNCIA COM O EDUARDO (6)





[…]

Olho para o que me rodeia, numa visão mais alargada do meu ambiente doméstico, e assusto-me.

Nos locais onde seria espectável haver gente com algum saber social e experiência histórica dos riscos a assumir, só vejo incompetentes, sedentos de poder discricionário, ambiciosos pela auto-notabilidade, as "outras caras" do espelho – os egocêntricos. A incapacidade retórica e a argumentação pueril assusta-me. E, é disto que estamos rodeados...

Tudo isto me assusta, principalmente porque são esses indivíduos que têm o poder nas mãos.

[…]



quarta-feira, 1 de março de 2017

A CULPA É DO CENTENO



O país conseguiu provar que era possível reequilibrar as contas do Estado sem a experiência inovadora da desvalorização fiscal combinada com o empobrecimento dos trabalhadores e a destruição da classe média? Conseguiu e a culpa foi do Centeno, o diabo não apareceu, Passos Coelho pode cumprir a promessa de votar no PS se conseguisse tal feito e a Maria Luís pode regressar à escola primária para fazer a disciplina de aritmética.
Os portugueses podem ter um ano tranquilo, sem tarados a explicarem desvios colossais, sem um primeiro-ministro a usar a troika para os chantagear, sem as palermices do Paulo Portas? O país percebeu que se pode viver sem médio da troika e do Eurogrupo, que se pode planear a vida sem receio de que Passos lhe tire metade do próximo ordenado ou que decida que só vai receber salário mês sim, mês não. E a culpa foi do Centeno.
O país pode viver tranquilamente, com estabilidade fiscal, sem a necessidade de planos B, C e D, sem ser necessários sucessivos orçamentos rectificativos? Pode e deve isso a Centeno, acabaram-se as paranóias do Passos, a incompetência da Maria Luís e os livros brancos do Paulo Portas.
É possível um ministro das Finanças rigoroso e competente dialogar com o BE ou com o PCP, fazendo aprovar orçamentos de forma quase tranquila? É e a culpa é do Centeno, foi graças a ele que o parlamento aprovou dois orçamentos, algo que a direita nunca imaginou ser possível.
É possível gerir altos níveis de austeridade, melhorar os rendimentos, evitar a recessão e conseguir que os portugueses estejam optimistas, como se não se via há muitos anos? É e a culpa é do Centeno, os portugueses confiam na sua competência, no seu rigor, na sua capacidade negocial interna e externa e na sua palavra.
São demasiadas culpas para um ministro, ainda por cima alguém se qualquer experiência politica, que ainda não domina os truques de linguagem palaciana de uma seita política formada nas juventudes partidárias, gente para quem é melhor andar a roçar o cu pelas cadeiras e depois ir tirar um curso de canalhice a Castelo de Vide, do que queimar as pestanas com um doutoramento nas melhores universidades do mundo, onde, aliás, pouco mais poderiam fazer do que serem jardineiros.
É por isso que querem destruir Centeno a qualquer custo, é por isso que vale tudo e até se servem de um maluquinho vingativo e sem princípios, que pede a um qualquer Don Corleone que divulgue as mensagens SMS que recebeu no quadro de uma relação de confiança e lealdade. O problema é que os portugueses não são parvos e esta sanha de ódio pode ter o resultado contrário ao esperado. Centeno é o melhor ministro deste governo e aquele que mais é apreciado pelos portugueses.
A manobra é tão evidente e de tão baixo nível que a direita pode vir a pagar um preço muito elevado pela institucionalização da canalhice. O desespero de Passos Coelho está a conduzi-lo para um beco sem saída.




quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

DA MINHA CORRESPONDÊNCIA COM O EDUARDO (5)
















[…]

Voltou, novamente, a política circense.

Uma das coisas de que eu gostava nos circos era os palhaços. As suas mal disfarçadas contradições e os trocadilhos utilizados nos seus discursos faziam rir e dispunham bem. Tenho, contudo, pena do “casting” de palhaços escolhidos para o circo par(a)lamentar. Há lá personagens que nem para saltimbancos de rua serviam...  Não se interessam por agradar o público, mas, tão-só, prejudicar a actuação dos seus “partenairs”, mesmo que isso possa pôr em risco a sua própria actuação no espectáculo. As rábulas dos palhaços estão muito mal construídas, pecam pela falta de graça e agridem o público pagante que assiste ao espectáculo.

É triste! Que saudades que eu tenho de um bom espectáculo circense...!

Todavia, que não periguem mais o circo. Não introduzam espectáculos de leões, ou tigres ou quaisquer outras feras, pois, com esta selecção de artistas, os domadores escolhidos poderão não estar suficientemente preparados e provocar a morte dos artistas... e, com isto, o fim do circo. Desta forma, quando chegasse o Natal, o pai-natal não poderia “ir com o coelhinho ao circo” (expressão utilizada, há bastante tempo, num anúncio de uma marca de chocolates).


[…]

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O PÚBLICO DE DAVID DINIS NO SEU MELHOR







Hoje, começa o congresso dos jornalistas…


O que se passou ontem no Público é mais um belo exemplo do advento da pós-verdade: surge uma notícia adulterada, entretanto desmentida, e um jornal supostamente credível apropria-se dela, ignorando esclarecimentos posteriores, redesenha-a e gera réplicas noutros meios.


De facto, como escreve João Mendes, do Aventar, o Público do Sr. Dinis está uma miséria. Não admira que não haja lá espaço para o José Vitor Malheiros.


Estou plenamente de acordo...

A cronologia de um truque:

12:47 – The Guardian e FT publicam notícia com declarações de Robert Goodwil, ministro da imigração do Reino Unido, onde este diz que vê como bons olhos a aplicação de um imposto de mil libras sobre cada trabalhador estrangeiro, “útil para os trabalhadores britânicos que se sentem preteridos.”

16:06 – The Guardian diz que, apesar das declarações do ministro, não existe qualquer intenção do governo britânico e refere expressamente, no mesmo texto, que não passou de um comentário. O esclarecimento vem do gabinete de Theresa May, primeira-ministra, que se distancia da ideia. http://tinyurl.com/j9wgr6q

16:26 – Público, ignorando o encerramento da história determinado pela notícia do The Guardian, que desfez todo o seu potencial de polémica e, provavelmente, animado com o potencial de partilhas e likes de emigrantes portugueses e familiares, diz que “Londres quer taxar com mil libras cada trabalhador qualificado europeu.” LONDRES! QUER! TAXAR! – já é outra história – Só mais adiante, no decorrer da notícia, é que se lê que não é “Londres”, ou seja, que não é nenhuma proposta ou decisão do governo britânico, mas sim uma opinião pessoal favorável de um dos seus ministros. (da imigração e não do interior, como diz erradamente o PÚBLICO) http://tinyurl.com/gl37js9

Para piorar, acrescenta no lead que o Labour considerou a medida uma forma de “boa gestão da imigração,” o que é mentira, como se pode ver pela própria peça do The Guardian. O diário português baseou-se nas declarações de Frank Field, um MP do Labour que está extremamente distante da liderança do partido e nunca apoiou Jeremy Corbyn. Longe de ser “o Labour.”
17:29 – O Público, face às evidências e às reprimendas dos leitores, corrige a informação sobre o Labour. Corbyn rejeita.

18:01 – O Público, uma hora e meia depois e após mais reprimendas de leitores, corrige finalmente a notícia e considera o comunicado de 10 Downing Street (“No 10”). Ironicamente, usa, como base, uma notícia que é anterior à sua primeira notícia. http://tinyurl.com/grdtlfe

18:51 – Como um cancro, a notícia falsa alastra-se pela imprensa portuguesa, que, quando não é a primeira, tem toda a pressa em ser a segunda e, logo, dar a notícia sem verificar. “Londres admite impor imposto para trabalhadores qualificados de outros países europeus”, diz o Negócios. http://tinyurl.com/znc4jbg
1000 partilhas geradas com uma não notícia. Receitas de publicidade. Clicks, clicks! Alarme! Choque! E a decadência progressiva da imprensa portuguesa, arrasada na sua credibilidade.



quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O EXPRESSO NO SEU MELHOR


Às 18:00 horas o Expresso desperta para "as informações".

Penso, pelo que observei, que a forma de apresentar a informação será diferente, conforme o tipo de leitores a que se destina. Vejamos:


- Se o público leitor é indiferenciado a informação será assim



- Para não ser tão ostensivo – pois a mensagem já passou ( e, se calhar, o público alvo já não voltará a reler a notícia) – corrige-a assim



- No Expresso online, a informação é apresentada diferentemente




- Por fim, para leitores diários que lêem o Expresso em papel ao Sábado ou que são assinantes, o seu Expresso diário apresenta assim a notícia



Dá para perceber o que é um "Órgão de Comunicação Social de Referência!... (!)





segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990



A Língua é um património valioso e um instrumento determinante para a afirmação dos povos e das suas culturas, porque é através dela que exprimem a sua identidade e as suas diferenças. Tal como a espontaneidade da vida e dos costumes de cada povo, a Língua é um elemento vivo, e não pode, por isso, ser prisioneira de imposições do poder político, que limitam a sua criatividade natural.

O “Acordo Ortográfico” de 1990 (AO90), nasceu de uma ideia peregrina do então Primeiro-Ministro, Cavaco Silva, com o duplo objectivo de “unificar” “as duas ortografias oficiais” do Português (sic) – alegadamente para evitar que o Português de Portugal se tornasse uma “língua residual”(!) –, e de “simplificar” a escrita. Na realidade, o que fez foi abrir uma caixa de Pandora e criar um monstro. O AO90 – a que os sucessivos Governos, com uma alegre inconsciência, foram dando execução –, é um fiasco político, linguístico, social, cultural, jurídico e económico.

O processo de entrada em vigor do AO90 nos Estados lusófonos começou por ser um golpe político: o AO90 teria de ser ratificado por todos os Estados. Mas Angola e Moçambique, os dois maiores Países de língua portuguesa a seguir ao Brasil, nunca o ratificaram. E, dos restantes países, só três o mandaram “aplicar” obrigatoriamente: Portugal, a partir de 2011-2012, Cabo Verde, a partir de 2014, e o Brasil, a partir de 2016. Os resultados desta trapalhada estão à vista: em Cabo Verde, apenas dois anos depois, o Português vai passar a ser “segunda língua” no ensino, e o Crioulo a língua principal. Um dos grandes objectivos propalados pelo AO90 não era o de evitar que o Português se tornasse numa “língua residual”?

“O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Foi o que aconteceu com o AO90: os efeitos que produziu foram exactamente o contrário do que se pretendeu.

Senão vejamos: o princípio que presidiu ao AO90 foi o de que a ortografia deveria ser determinada pelo alegado “critério da pronúncia” (?!), o que gerou aberrações da maior gravidade, de que damos apenas alguns exemplos:
ü  Ao pretender eliminar as consoantes “mudas”, o AO90 criou arbitrariamente centenas de lemas (entradas de Dicionário), até aí inexistentes em qualquer das ortografias (portuguesa ou brasileira): “conceção”, por “concepção”; “receção”, por “recepção”, “espetador” por “espectador” — o que criou confusões semânticas, como, por exemplo, “conceção de crédito”, “receção económica” ou “espetador de cinema”.
ü  No entanto, pela mesma lógica, o AO90 deveria começar por cortar a mais “muda” de todas as consoantes: o “h” inicial. O que não fez.
ü  Estabeleceu 17 normas que instituem duplas grafias ou facultatividades, assentando num critério que se pretende de acordo com as “pronúncias” (?!): “corrupto” e “corruto”, “ruptura” e “rutura”; “peremptório” e “perentório”.
ü  Óptico” (relativo aos olhos), com a supressão da consoante “muda” “p”, passou a “ótico” (relativo aos ouvidos), o que cria a confusão total entre os Especialistas e o público, que deixam de saber a que órgão do corpo humano nos estamos a referir!
ü  Em Portugal, a eliminação sem critério das consoantes “c” e “p”, ditas “mudas”, afasta as ortografias do Português europeu e do Brasil (quando o que se pretendia era aproximá-las), criou desagregações nas famílias de algumas palavras e provoca insólitas incoerências: passou a escrever-se “Egito”, mas “egípcios”; produtos “lácteos”, mas “laticínios”; os “epiléticos” sofrem de “epilepsia”; um “convector” opera de modo “convetivo”; o “interrutor” produz uma “interrupção”.
ü  O facto de as facultatividades serem ilimitadas territorialmente (por exemplo, “contacto” e “contato”; “aritmética” e “arimética”) conduz a uma multiplicação gráfica caótica: por exemplo, o Curso universitário de “Electrónica e Electrotecnia” pode ser grafado com 32 combinações diferentes; o que é manifestamente absurdo.
ü  A confusão maior surgiu entre a população que se viu obrigada a ter de “aplicar” o AO90”, e passou a cortar “cês” e “pês” a eito, o que levou ao aparecimento de erros, tais como: “batérias”, “impatos”, “ténicas”, “fição”; “adatação”, “atidão”, “abruto”; “exeto” (por “excepto”); para além de cortarem outras consoantes, como, por exemplo, o “b” em “ojeção”, ou o “g” em “dianóstico”.
ü  No uso de maiúsculas e minúsculas, o caos abunda; “Rua de Santo António” pode escrever-se de quatro formas: também “rua de Santo António”, “rua de santo António” ou “Rua de santo António” (se acrescentarmos as 4 do Brasil, com “Antônio”, dá um total de 8 formas possíveis (!)).
ü  O AO90 prescreve ou elimina o uso do hífen de forma totalmente caótica. Vejamos alguns exemplos: “guarda-chuva”, mas “mandachuva”; “cor-de-rosa”, mas “cor de laranja”; zona “infantojuvenil”, mas “materno-infantil”; e aberrações como “cocolateral”, “cocomandante”, “semirreta”, “conavegante”, “corréu”, “coutente”.
ü  Entre outras arbitrariedades, a supressão do acento agudo cria situações caricatas. A expressão popular: “Alto e pára o baile”, na grafia do AO90 (“Alto e para o baile”) dá origem a leituras contraditórias. A frase “Não me pélo pelo pêlo de quem pára para resistir” fica, com o AO90, escrita deste modo: “Não me pelo pelo pelo de quem para para resistir” — o que é incompreensível, seja qual for o contexto.
ü  Em contrapartida, para “compensar” o desaparecimento da consoante “muda” e evitar o “fechamento” da vogal anterior, imposto pelo AO90, na escrita corrente, surgem aberrações espontâneas como a colocação de acentos fora da sílaba tónica: “correção” escrito “corréção”; “espetaculo” corrigido para “espétaculo” ou mesmo “letivo” que passa a “létivo”!

Em suma, com este caos (orto)gráfico como se poderão “ensinar” as crianças a escrever Português?
Mas há mais: o AO90 não incide sobre os factores de divergência da linguagem escrita entre Portugal e o Brasil, nas quais existem diferenças lexicais (fato – terno; autocarro – ônibus; comboio – trem), sintácticas (tu – você) e semânticas (palavras com sentidos diferentes: camisola, por exemplo, que, no Brasil, significa “camisa de dormir”). Estamos perante diferenças atávicas que caracterizam as duas variantes do Português e que não se alteram por decreto.

O caos na grafia grassa nos vários dicionários, correctores e conversores. Com estas ferramentas discrepantes, os utilizadores da Língua Portuguesa, que já têm dificuldade em “aplicar” o “Acordo”, ficam ainda mais confusos e instáveis. Hoje, ninguém sabe escrever Português com o “Acordo”.

Sejamos claros: a diversidade ortográfica – entre apenas duas variantes do Português: o de Portugal e o do Brasil – nunca foi obstáculo à comunicação entre os diversos povos de Língua portuguesa; como nunca foi razão de empobrecimento, mas, pelo contrário, uma afirmação da pujança da nossa Língua; o que, aliás, faz dela uma das mais escritas e utilizadas do Mundo. O Inglês tem 18 variantes, e não deixa por isso de ser a principal língua internacional; o Francês tem 20 e o Castelhano, 15.

Por outro lado, as “aplicações” do AO90 afastam o Português padrão das principais Línguas internacionais, o que só traz desvantagens em termos etimológicos, de globalização e de aprendizagem dessas línguas estrangeiras, em relação às quais não temos qualquer vantagem em nos afastar. Por exemplo, a palavra “actor”. Em todas as línguas, como a nossa, em que a palavra é de raiz latina, escreve-se “actor” com c ou k (excepto em Italiano, mas em que se escreve com duplo tt, que tem idêntica função de abrir a vogal “a”).

É caso para dizer que “foi pior a emenda que o soneto”.

Mas o AO90 é também um lamentável exemplo da forma como o Estado abusou do seu poder. A “Nota Explicativa” contém erros crassos, falácias e falsidades. Mais grave, nunca foi promovida qualquer discussão pública sobre o AO90. Em 2005, foram emitidos 25 Pareceres negativos por parte de Especialistas e de entidades consultadas. Porém, esses documentos foram ocultados. Todo o processo do AO90, culminando com a Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, é um péssimo exemplo de falta de transparência, inadmissível num Estado de Direito democrático (artigos 2.º e 48.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa).

Por sua vez, o AO90 dividiu a sociedade e as gerações, ao impor uma forma de escrita nas escolas, Universidades e instituições do Estado e da sociedade civil — enquanto a esmagadora maioria dos Portugueses continua a escrever com o Português pré-AO90.
A maioria dos escritores lusófonos, muitos dos professore
s, dos tradutores e da Comunidade científica têm manifestado a sua repugnância em acatar o “Acordo”. Mesmo o grande número dos que acatam o AO90, por convicção, pragmatismo, inércia, subserviência, ou porque são obrigados a obedecer-lhe, na realidade, escrevem em Português normal, e limitam-se a deixar que os textos sejam depois adaptados pelos correctores ou revisores.

Finalmente, no domínio jurídico, há vários atropelos que devem ser denunciados. Desde logo, o “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, para entrar em vigor, deveria ter sido ratificado por unanimidade, e não apenas por 3 Estados, como sucedeu.

Por outro lado, o AO90 é inconstitucional, porque o Estado não pode programar a cultura e a educação segundo quaisquer directrizes estéticas, políticas ou ideológicas (artigo 43.º, n. 2, da Constituição). E viola também o dever de defesa e de preservação do nosso património cultural (artigo 78.º, n.º 1).

Em suma, o AO90 teve os efeitos exactamente opostos aos que se propunha: não uniu, não unificou, não simplificou. É um fracasso político, linguístico, social, cultural e jurídico. E é também um fracasso económico, pois, ao contrário do que apregoou, não fez vender mais nem facilitou a circulação de livros. Pelo contrário: as vendas caíram. No Brasil, o Português pré-AO90 continua a ser preferido.
A Língua é o ins
trumento decisivo da formação das crianças e dos jovens. Não podemos permitir que o arbítrio de decisões erradas seja transmitido às gerações futuras, de que somos cuidadores, separando filhos e pais, muitos dos quais escrevem hoje com ortografias diferentes.

Em 18 de Maio de 1991, durante a discussão no Parlamento sobre o “Acordo Ortográfico”, o Deputado Jorge Lemos declarou, profeticamente: “O acordo é inútil, ineficaz, secretista, prepotente, irrealista, infundamentado, desnecessário, irresponsável, prejudicial, gerador de instabilidade e inoportuno. (…) Por isso, Sr. Presidente e Srs. Deputados, este texto que nos foi distribuído, como sendo o texto do Acordo, só pode ter uma solução: ser rasgado.” E, perante a Assembleia, passou das palavras aos actos – e rasgou-o.

25 anos depois, é mais do que tempo de lhe seguirmos o exemplo.