domingo, 20 de janeiro de 2013

A NECESSIDADE DE REPRESENTAR… E SER OUVIDO



Os espectadores estavam inquietos nos seus lugares. Mexiam-se, inconfortáveis, com uma frequência pouco usual que aquela Sala de Teatro já não estava habituada a sentir; até porque já há tempo em demasia que as peças de qualidade duvidosa por esta sala "assentavam arraiais".

O público frequentador desta Sala era quase sempre o mesmo em todas as representações que ultimamente ali apareciam. Na falta de qualidade cultural ou de credibilidade artística, as pessoas acomodavam-se às rotinas adquiridas – eram frequentadores habituais da Sala de Teatro.

A Peça, a exemplo das últimas que ali foram representadas, era protagonizada pelos mesmos canastrões: Pedro Coelho e Gaspar.

Desta vez, talvez porque no seio da própria companhia reina a discórdia, o Ponto ("criador" das deixas para os autores) foi súbita e anormalmente assumido pelo pivô dos saltimbancos: Selassié.

Este nome ficou na história, mas não é a mesma individualidade. O mais conhecido – Hailé Selassié – foi imperador da Etiópia; o "nosso" Ponto integra uma companhia de saltimbancos…

Já quase tudo era admitido naquela sala de teatro. Mesmo assim o público estava mais instável do que era costume. Esta instabilidade manifestada pela plateia contagiava os próprios canastrões protagonistas. O da voz bem timbrada quase que não se ouvia e a voz tremia-lhe; o outro, o da conversa mais pausada, inexplicavelmente atropelava as palavras e estas, deficientemente, saíam-lhe em catadupas.

Mas, eis senão quando, o Ponto (o senhor Selassié) salta para Cena e com o mais seráfico dos sorrisos, recita – ele próprio – ignorando a Didascália, o enredo e a própria peça, começa a recitar (qual canastrão protagonista e convencido):

Os cortes na despesa no Estado Social, entenda-se, são melhores que aumentos de impostos, embora coexistam. Estes cortes deixam "ao estimado público" a escolha entre morrer de fome, morrer de peste ou enforcar-se. Morrer de morte natural ou de velhice e com dignidade é que nunca mais acontecerá…

Entretanto, cá fora na rua, o temporal exercitava-se, com o vento rugindo e a chuva ensopando quem não se tinha refugiado na Sala de Teatro. E, talvez porque as pessoas no exterior da Sala de Teatro não tenham ouvido o senhor do Ponto (Selassié), ninguém se matou.

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